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Por vezes já ouvi a frase: ”Não entendo muito de vinho, mas uma coisa eu já aprendi: vinho bom é vinho tinto”, o que é um lamentável equívoco. O pouco prestígio que os vinhos brancos ainda gozam no Brasil é um fenômeno incompreensível para a maioria dos produtores estrangeiros que nos visitam.

Afinal, o país é majoritariamente tropical e os peixes, frutos do mar, frutas e saladas têm papel importante em nossa culinária. Hoje a oferta de brancos importados já é grande, com qualidade, preço atraente e diversidade.

O consumidor já reconhece isso e aos poucos os caldos amarelos entram na moda, embora ainda exista muito preconceito. Esta brancofobia? só pode ser entendida com uma análise do histórico da evolução do nosso mercado.

Nos anos 70, a mania foi o rosado português Matheus Rosé, frisante e semi-doce. Nos anos 80, dominaram os alemães e pseudo-alemães da garrafa azul, cuja intensidade do consumo foi inversamente proporcional à qualidade.

Como conseqüência, associou-se qualquer vinho branco àqueles caldos açucarados intragáveis. Hoje estão em voga os tintos super-encorpados, super-alcoólicos, super-madeirados e, muitas vezes, também super-caros. Todavia, os verdadeiros amantes do nobre fermentado não se dividem em bebedores de vinhos tintos ou brancos. São apenas apreciadores de produtos de categoria.
E esta não se exprime na cor do vinho e sim na qualidade intrínseca ao líquido, dentro de seu estilo.

A primazia dos tintos chegou ao extremo de motivar alguns os vitivinicultores brasileiros a arrancar vinhas de castas brancas para plantar tintas em seu lugar. Os rubros também contribuem com cerca de 80% do volume dos vinhos de mesa importados para o Brasil.

Outros fatores que explicam a preferência pelos tintos são: a pouca oferta de brancos nacionais de bom nível e a associação dos tintos à saúde.

Enumerei abaixo 10 motivos e dicas para você descobrir e melhor apreciar os vinhos brancos em geral:

1-Clima: o clima da maior parte do Brasil na maior parte do ano pede vinhos mais refrescantes, mais leves ao palato e a digestão e servidos a temperaturas mais baixas.

2-Saúde: Que nossa bebida favorita faz bem, sobretudo os tintos, sabemos.
Mas isto não deveria ser um argumento para o abandono dos brancos. Não esqueçamos que o ”paradoxo francês” (baixo índice de problemas causados pelo colesterol em um país de alto consumo de gorduras saturadas) vem da nação que produz os maiores brancos do mundo. Quem quiser uma justificativa para se conceder o prazer dos vinhos brancos, já tem: recentemente, cientistas do departamento de anatomia humana da Universidade de Milão, comprovaram que substâncias contidas nestes reduzem a endência a doenças como artrite reumática e osteoporose.

3-Menor rejeição ao organismo: complementando o item anterior, os vinhos tintos são pura saúde para a maioria das pessoas, mas alguns infelizmente são sensíveis aos polifenóis e histaminas contidas em maior concentração nos tintos, sofrendo de alergias em enxaquecas. Para estas pessoas os brancos são a solução.

4-Gastronomia: na hora de harmonizar vinhos e pratos os brancos são bem mais versáteis e combinam com uma gama muito maior de pratos. O tanino dos tintos pode ser um fator complicador pois pode ?brigar? ou se sobrepor a uma série de ingredientes e receitas, o que não acontece com os brancos. Além de saladas, frutos do mar e doces, os brancos são o ideal com: aspargos, choucroute, cozinha chinesa, cozinha japonesa, cozinha tailandesa, curries, escargots, foie gras (escalope e terrine), rãs, e conforme a receita podem ser a melhor escolha para o risoto, pato, vitela e presento cru, por exemplo.

5-”Queijos e Vinhos” e o Fondue: na hora do seu ”queijos e vinhos” os brancos também são mais versáteis, pois combinam com uma gama muito maior de queijos. Para as receitas de fondue de queijo em geral os vinhos brancos estruturados e com boa acidez são os mais indicados, como um Riesling.

6-Serviço correto: apreciar um bom branco exige um serviço correto. Taças ovaladas são importantes para valorizar os aromas do vinho e a temperatura certa é fundamental, para que o vinho mostre seu frescor. Quem prova brancos quentes tem todo motivo para não gostar deles. Sirva: cerca de 6oC a 8ºC brancos doces (Sauternes, Moscato, Tokaj); de 8ºC a 10ºC brancos suaves e alguns brancos secos (Gewurztraminer, Vinho Verde, Muscadet, Vouvray, Sancerre, Orvieto, Chanin Blanc); de 10ºC a 12ºC para brancos mais secos (Borgonhas, Chablis, Bordeauxs brancos, Jerez fino, Riesling, Soave, Verdicchio, Chardonnays e Sauvignon Blancs em geral), 12ºC a 14ºC para grandes brancos secos com mais idade.

7-Bom gosto e bom senso: o ”bom gosto” a que nos referimos é ter o bom senso de servir o vinho adequado a cada ocasião, a cada prato e cada ambiente. Sabemos que ir de sobretudo à praia, por exemplo, ou dormir de smoking, ou ir de biquíni à opera no Theatro Municipal é um pouco fora do bom senso. Assim é com o vinho. Cada tipo de inho tem seu momento, a sua hora. Para quem pede tinto sempre, independente do prato ou da ocasião, experimente um bom branco na hora certa e faça o teste.

8-Estilos: Existe uma ampla gama de vinhos brancos para vários paladares e várias ocasiões. Podem ser doces, meio-doces ou secos; florais, frutados, minerais, barricados (fermentados em madeira e portanto com aromas de baunilha, tostados etc); leves ou encorpados. Como exemplos de brancos leves podemos citar: Vinhos Verdes, Sauvignon Blanc, Pinot Grigio, Torrontés e Chablis AOC. Alguns mais encorpados são: vinhos barricados (fermentados em madeira) em geral, Rieslings, Chardonnay, Alvarinhos (alguns são barricados), brancos do Rhône (Chateauneuf-du-Pape, Condrieu), Chablis Grand Cru.

9-Brancos de guarda: É verdade que como regra geral brancos não envelhecem, mas existem muitas exceções. Bordeaux de maior estirpe, Borgonhas e Chablis 1er Cru e Grand Cru, os melhores Rieslings de vários países, Sémillons australianos do Hunter Valley, diversos brancos portugueses, como os da casta Encruzado, são brancos que podem viver mais de uma década sem problemas e lhe dar grandes alegrias na hora de apreciá-los.
Os vinhos doces em geral são bastante longevos e vivem décadas.

10-A cara do Brasil: O vinho branco combina com não só com nosso clima mas também com o temperamento expansivo da população, o que sugere uma maior afinidade com a fragrância dos brancos do que com os tintos mais sérios e cerebrais. É um dos caminhos para o aumento de consumo desta bebida no Brasil.

11-Diversidade: sei que prometi apenas ”10 motivos e dicas”, mas é sempre bom dar mais que o esperado e este 11º item é um ”bonus track”. Um dos maiores encantos do vinho é sua diversidade. Normalmente quem gosta de vinho gosta de experimentar, está sempre em busca de novos sabores. Para quem só degusta tintos, continue a gostar dele, mas dê uma chance aos brancos, pois abdicar deles é abrir mão de uma grande parte da produção mundial desta bebida e de muitas descobertas e bons momentos.

Por Marcelo Copello
Fonte: Guia do Profissional de Hotelaria e Restaurantes

Data de publicação: 30/08/2010

 

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